Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante

Depois da pequena jogada de tentar colar o último (e impopular) governo à aplicação do acordo ortográfico (AO), os aguerridos anti-AO voltam à carga porque um dos seus melhores (Vasco Graça Moura-VGM) resolveu utilizar a tribuna que lhe dá um emprego de nomeação governamental para voltar a pôr em causa o acordo, embora se saiba que a sua aplicação será obrigatória em 2014. Confesso que até acho interessante a tomada de posição de VGM, demonstra coerência e força de vontade. Dado que acredito na sinceridade das opiniões de VGM sobre o AO, isto é, acredito que  acredita que se trata dum sporte bet “ataque sem precedentes” à língua portuguesa, apraz-me que aproveite uma posição de poder para exercer o dito poder.

Claro que a ordem de suspender a aplicação do AO no CCB deu logo origem a muitos aplausos dos anti-AO e muita irritação dos pró-AO. Os jornais “Público” e “Expresso”, que há anos disputam o que resta das elites leitoras de jornais, não perdem uma oportunidade para põr em evidência o seu lado da barricada. Na Assembleia da República, várias bancadas tentaram discutir a questão, mas ficaram-se pelas picardias e graçolas esporte bet, ninguém disse nada de verdadeiramente interessante, a não ser talvez o governo, que conseguiu mais ou menos mostrar-se calmo e “pouco preocupado” com a matéria.

Hoje no jornal Público, o cronista Rui Tavares, que defende o acordo, ao contrário do jornal em que escreve, dá-nos um artigo meio-humorístico a gozar com quem se preocupa tanto com as consoantes mudas (os anti-AO). Tem alguma graça, mas, sinceramente, começo a estar um pouco farto desta polémica e do que ela revela sobre a nossa incapacidade para resolvermos os nossos problemas. 

A verdade é que estamos agora numa situação ridícula em que uma parte da imprensa aposta esportiva online escreve com regras diferentes da outra parte, em que uma instituição financiada a 100% pelo erário público aplica ou não aplica o acordo conforme o senhor que o governo nomeia para a dirigir. Diria que o espectáculo dado pelos especialistas da língua é quase tão triste como o que nos é proporcionado nas primeiras semanas do ano pelos senhores especialistas da justiça na chamada “Abertura do Ano Judicial”.

Francamente, penso que a questão começa a cheirar mal. Será que é assim tão difícil sentar a uma mesa personalidades dos dois lados da barricada de modo a encontrar uma solução de compromisso que, por um lado, não nos ridiculize perante os nossos parceiros e, por outro, acolha algumas das críticas das pessoas chocadas com a queda das consoantes átonas? Falo por mim. Eu próprio preferiria começar a dizer o “p” de Egipto do que deixá-lo cair. Dado que todas as consoantes átonas já foram pronunciadas, por que não voltar a pronunciar algumas? Assim contentariamos aqueles que não as querem perder de modo nenhum e também aqueles que querem manter a regra do AO que obriga a escrever a consoante pronunciada bet apostas esportivas. Francamente preferiria pronunciar o “c” em acto, espectador  e transacto, ou o “p” em Egipto, baptismo e recepção, em vez de prescindir das ditas consoantes.

Como sou olhado com desconfiança por ambos os lados, dado que para os anti-AO sou do “inimigo” e para os pró-AO sou um apoiante “frouxo”, talvez esta modesta sugestão capte o interesse de alguém…

Faço-a pensando em todos aqueles que não têm culpa de haver tanta controvérsia em torno duma questão de somenos importância. A verdade é que os nossos especialistas não estão à altura das responsabilidades que lhes cabem. Não trabalham o suficiente para que seja relativamente simples saber escrever bem em português.  

 

Cada vez que se fala de Chipre nas notícias em Portugal (normalmente devido ao futebol), aparecem jornalistas a falar e a escrever sobre “o Chipre”, acrescentando um artigo definido ao nome de um país que tradicionalmente não o deve ter. Tal como Portugal, Marrocos, Cuba, Malta, Madagascar, Aragão, Castela, Leão, Navarra, Taiwan, só para dar alguns exemplos, Chipre é Chipre, NÃO É “o Chipre”.

Normalmente, os nomes dos países são usados com artigo definido, masculino ou feminino, mas há várias excepções, como as atrás indicadas. As ilhas, pelo contrário, normalmente não “pedem” artigo definido, como se pode ver nos exemplos de todas as ilhas com nomes de santos, em todas as ilhas da Grécia, das Antilhas e de muitos outros sítios do mundo. Há algumas excepções, que normalmente correspondem a nomes de ilhas que também são nomes comuns, isto é que designam algo de específico, como é o caso da Madeira e dos Açores, mas também há casos que não correspondem a essa explicação: a Córsega, a Sardenha, a Sicília. Muitos dos arquipélagos têm o artigo definido “as” por serem “as ilhas” qualquer coisa (Filipinas, Curilhas, Hébridas, Bahamas). Resumindo, não há nenhuma razão para que se diga “o Chipre”. Pelo contrário, deve-se dizer “Chipre” apenas, sem artigo definido.

Não consigo entender por que razão aparecem sempre tantos “comunicadores a falar sobre “o Chipre”. Por contágio de línguas estrangeiras,não é. Será porque a palavra é parecida com o termo “chifre”, bastando mudar uma letra? Já existe o Corno de África, será que também querem o Chifre no Mediterrâneo?

Na semana passada e amanhã o Sport Lisboa e Benfica enfrenta numa competição europeia uma equipa turca chamada Trabzonspor. Alguns escribas ainda disseram que o nome é impronunciável, mas ninguém se deu ao trabalho de descobrir se a cidade de Trabzon tem ou não nome português. Pois tem. É Trebizonda, cidade importante na época medieval e nome conhecido pelas pessoas familiarizadas com literatura de viagens e com alguns livros de Corto Maltese, de Hugo Pratt.

O que me choca nesta total ausência de curiosidade é a preguiça mental.

Bem sei que cresci numa época em que Portugal era um país fechado ao exterior e em que os jornalistas desportivos eram das poucas pessoas com contactos constantes com o estrangeiro. Também me lembro que eram quase sempre pessoas com conhecimentos consideráveis de Geografia e de História. Tenho a certeza que há 50 anos teria havido nos jornais quem tivesse aproveitado a circunstância do Benfica ter recebido o Trabzonspor e de se deslocar a Trebizonda para nos dizer algo sobre essa pequena cidade histórica nas margens do mar Negro.

Como hoje só interessa o irrelevante, tudo a que tivemos direito foi uma ou outra “graçola” sobre como o nome é impronunciável.

Aqui vai Trebizonda na Wikipedia em inglês, porque em português não há nada que interesse

Alguns dos opositores mais veementes ao acordo ortográfico (AO), como António Emiliano, Francisco Miguel Valada e Vasco Graça Moura, têm tentado nas últimas semanas reavivar a polémica, aproveitando o facto de haver um novo governo com claros propósitos reformistas, nomeadamente numa área de grande importância para a política da língua, a educação. O jornal “Público” tem acolhido generosamente alguns destes polemistas e um dos seus directores adjuntos (Nuno Pacheco) tem estado particularmente activo com artigos virulentos, facto que foi analisado na última semana pelo próprio Provedor do jornal.

Sem querer voltar a esta estafada polémica (quem quiser ler algo mais sobre o assunto, tem no Ciberdúvidas uma página bastante completa, e também um resumo das últimas declarações sobre o assunto), há que salientar que o novo ministro da Educação fez hoje um excelente discurso na Assembleia da República, no qual abordou com cuidado a questão do ensino da língua portuguesa. Os opositores ao AO, que sempre tentaram mistificar a opinião pública com a ideia de que “só eles” defendem a dita língua, estão a tentar “empurrar” este governo para que ponha a questão do AO na agenda política, mas parece-me que não vão ter sorte. Os sinais políticos que têm sido dados nas diversas áreas políticas apontam para um grande pragmatismo e não vejo sinais de vontade de alimentar polémicas desnecessárias.

Tem-se falado bastante nos últimos dias acerca do caso do “copianço” no Centro de Estudos Judiciários (CEJ). Não sei o que espanta mais, se o moralismo de algumas “virgens indignadas”, se a mediocridade da direcção do CEJ que tentou abafar o caso. Vamos por partes: a prática do copianço não é propriamente um caso isolado nas nossas escolas, provavelmente nunca o foi. É muito provável que muitas das pessoas “indignadas” que se exprimiram na imprensa  tenham ao longo da sua carreira escolar copiado uma ou outra vez, ou tenham permitido a colegas o dito copianço. O problema não é haver tentativa de fugir às regras, o problema é haver da parte de quem ensina e/ou dirige o ensino uma espécie de tolerância mediocre e preguiçosa. Não se ensina nada se não forem impostas regras, ética, recompensas aos virtuosos e castigos aos prevaricadores. Qualquer “relativismo” nesta matéria só indicia mediocridade e falta de vontade de ensinar. Sem estas balizas, o próprio acto de violar a regra fica desvalorizado, banalizado, torna-se uma inutilidade balofa.  

Quanto à direcção do CEJ, há que ler o depoimento de Manuel António Pina, no Jornal de Notícias (JN). Lamento dizer que não me espanta o que li no JN. Infelizmente, os assuntos da Justiça em Portugal estão condicionados pelo peso excessivo das corporações do sector e o CEJ é um viveiro de membros dessas corporações.

Agora que tomou posse o novo governo, talvez valha a pena regressar à polémica sobre o acordo ortográfico (AO). O novo governo poderá, eventualmente, aproveitar a descrispação política que parece ter-se instalado por algum tempo para tentar fazer avançar a execução do AO.

Neste blogue sempre lamentei que a polémica em torno do acordo tenha acabado por ficar demasiado politizada, em vez duma discussão civilizada entre pessoas com algum conhecimento sobre a matéria. A falta de cuidado de alguns inimigos do AO, que deixaram “encostar-se” à contestação algumas pessoas com posições xenófobas ou mesmo racistas (contra o Brasil, nomeadamente), prejudicou bastante a qulidade do debate.

O novo governo não deve olhar para trás, mas antes para a frente (apreciei sobremaneira a declaração de Passos Coelho na noite das eleições de que não iria falar do passado para “justificar” qualquer falha do presente). E a causa da defesa da língua portuguesa deve reunir todas as forças disponíveis. Entre os inimigos do AO há muitas pessoas verdadeiramente empenhadas na defesa da nossa língua e não seria inútil que houvesse a habilidade suficiente para os trazer de volta a consensos alargados sobre uma política da língua.

Os leitores deste blogue sabem bem que nunca fui um entusiástico defensor do acordo, mas sempre contestei que se pusesse em causa um acordo internacional por questões de menor importância. Claro que não gosto da eliminação de consoantes átonas com que estou habituado a escrever, claro que tenho adiado a aplicação do acordo neste blogue (enquanto não for obrigatório, vou-me mantendo no meu comodismo), mas aquilo que os adversários do AO não me conseguem explicar é a urgência, a necessidade, a premência de dificultar as nossas relações com os países de língua portuguesa por causa de alguns (poucos) incómodos que nos possam causar as pouquíssimas alterações ortográficas introduzidas pelo AO.

Se me conseguissem explicar, então talvez me convencessem que valeria a pena voltar a falar com os outros países signatários do acordo e fazer uma revisão que melhorasse o AO. Mas não seria o esforço desproporcionado?

Enfim, seja como for, aqui vão três conselhos singelos: em primeiro lugar, deve-se alterar o menos possível o que já está em curso. A matéria é suficientemente polémica para que mereça a pena introduzir novos factores de divisão; em segundo lugar, devem ser ouvidas todas as partes na contenda, sem hostilização de ninguém. Como tenho dito repetidamente há entre os adversários do AO muitas pessoas qualificadas e o país precisa de todas. Em terceiro lugar, tentar manter o “soufflé” desinchado, evitando dar demasiada importância ao assunto.

Mão amiga reenviou-me um curto texto a explicar por que motivo a presidente Dilma Roussef  está a fazer grossa asneira quando defende o termo “presidenta”. Eis:

«Existe a palavra PRESIDENTA?

Que tal colocarmos um ponto final no assunto?

Em português existem particípios ativos que são derivativos verbais. Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendigar é mendicante… Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade. Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não “presidenta”,
independentemente do sexo que tenha. Diz-se capela ardente, e não capela “ardenta”; diz-se estudante, e não “estudanta”; diz-se adolescente, e não “adolescenta”; diz-se paciente, e não “pacienta”.

Um bom exemplo do erro grosseiro seria:

“A candidata a presidenta comporta-se como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter-se tornado  eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, de entre tantas outras atitudes barbarizantas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta”.

 Nos jornais desportivos de Portugal, nos últimos tempos, tem aparecido com alguma frequência o termo “ilusão” em frases que parecem um pouco absurdas na nossa língua. Exemplos: “Vamos disputar com muita ilusão o próximo jogo” ou “na nossa equipa jogamos sempre com muita ilusão”. Normalmente, trata-se de declarações de jogadores espanhóis ou da América latina que são “traduzidas” à pressa e à letra nas redacções. Erro. Em espanhol, e só em espanhol (não acontece em mais nenhuma língua neolatina) o termo “ilusión” ganhou, no período romântico, uma conotação ligeiramente diferente do significado do termo original em latim. No excelente dicionário María Moliner a segunda definição de ilusión reza assim: Alegria o felicidad que se experimenta con la posesión, contemplación  o esperanza de algo

Veja-se, a este propósito a entrada do dicionário da Real Academia da Língua Espanhola , em especial as definições números 2, 3 e 4 ou leia-se o último parágrafo desta definição encontrada Wikipedia.

Para quem quiser uma explicação mais completa, aqui vai uma parte de um ensaio de Juliám Marías sobre o assunto:

«UN SECRETO DE LA LENGUA ESPAÑOLA.

La palabra ilusión proviene del latín illusio

Iluso: el que está engañando.

Ilusor: el que engaña a otro.Ilusorio

: algo que engaña.Pero es en el español donde comienza a aparecer el significado positivo de la palabra ilusión

. Con este significado, comienzan a surgir distintas expresiones como “tener ilusiones”, “vivir con ilusión“, etc. El cambio semántico de ilusión tiene lugar en los primeros decenios del siglo XIX, pero no fue registrado por los diccionarios hasta finales de dicho siglo. Hasta entonces, la ilusión era fruto de la imaginación, algo engañoso, un sueño imposible de alcanzar (hacerse ilusiones). En 1875 sigue su significado negativo, pero empieza a verse el positivo, aunque predomina la noción de error. Pero ya podemos ver que la ilusión nos es imposible de alcanzar o no, y si es así, si la podemos hacer realidad, nos brinda felicidad y satisfacción. Así, también cabe destacar que toda ilusión está inseparablemente unida a la posibilidad de la desilusión; cuando no conseguimos nada, cuando creemos que algo nos va a provocar bienestar y al final no es así, nos desilusionamos. A mediados del siglo XX se comienza a registrar la mayor parte de los aspectos positivos de esta singular palabra: tener ilusiones, hacer algo o poseer algo que nos haga sentirnos bien.»Como os meus leitores bem sabem, não me incomodam muito as influências de outras línguas na nossa, mas teimo em chamar a atenção para influências que resultem apenas de ignorância pura. Já aqui me insurgi contra a generalização do termo “provador” para designar as cabines de prova nas lojas de roupa. Em português, um provador é uma pessoa que prova, tal como um comedor é uma pessoa que come (em espanhol, comedor é refeitório).

Não tenho ilusões (em português) quanto à eficácia destas críticas, já que a simplificação, a pressa e o imediatismo dos efeitos são verdadeiros ídolos do nosso século. Mas continuarei a fazê-las con ilusión (em espanhol).  

O dia seguinte (3)

7 de Junho, 2011 por Miguel RM

Mais um interessante comentário aos resultados eleitorais, desta vez de alguém – Luís M. Jorge – que anunciou ir votar em branco.

O dia seguinte (2)

7 de Junho, 2011 por Miguel RM

Mais um interessante comentário aos resultados eleitorais, desta vez de Vasco Campilho,