Enxuto http://www.enxuto.org Adj.: Diz-se do estilo que não tem excessos nem redundâncias; elegante Mon, 20 Feb 2012 18:58:28 +0000 en hourly 1 http://wordpress.org/?v= Sobre o acordo ortográfico, um excelente artigo de Helena Topa http://www.enxuto.org/blogue/sobre-o-acordo-ortografico-um-excelente-artigo-de-helena-topa http://www.enxuto.org/blogue/sobre-o-acordo-ortografico-um-excelente-artigo-de-helena-topa#comments Mon, 20 Feb 2012 18:23:58 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=896 No jornal “Público”, de dia 19 de Fevereiro de 2012
 
ACORDO ORTOGRÁFICO: PRÓS E CONTRAS
 Helena Topa

  Sou uma de­fen­so­ra, em­bo­ra crí­ti­ca, des­te AO. Re­cu­so-me a re­jei­tá-lo li­mi­nar­men­te, e pug­no por uma re­vi­são dos pon­tos que ca­re­cem de cor­re­ção. recente episódio da proibição de seguir a nova norma ortográfica por parte do novo diretor do CCB, Vasco Graça Moura, veio relançar, e incendiar, o debate sobre o Acordo Ortográfico (AO). Debate esse, em boa verdade, escasso, dado que, com honrosas exceções, apenas ouvimos as vozes dos detratores.

 Tudo o que tenho lido e ouvido sobre o Acordo Ortográfico revela quase sempre posições extremas, a favor ou, mais frequentemente, contra. É claro que todos têm o direito de se sentirem lesados com estas mudanças, afinal aprenderam a ler e a escrever as palavras da sua língua de uma determinada maneira, e essa maneira de escrever, que se tornou automática, é agora alterada.

 Mas o que mais me preocupa não é haver pessoas radicalmente contra ou a favor, é haver ainda muita ignorância e uma multiplicação de artigos de opinião que pouco fazem para esclarecer. Penso que caberia aos meios de comunicação social um papel pedagógico, expondo os factos, esclarecendo, chamando linguistas, professores, políticos e cidadãos a pronunciarem-se sobre o AO.

 Este acordo é sobretudo político, fazendo com que os aspetos linguísticos, que deveriam estar à frente das preocupações dos redatores do acordo, quer em Portugal quer no Brasil, tivessem sido ou insuficientemente amadurecidos, ou demasiadamente sujeitos à lógica do acordo, o que implicou cedências, uma uniformização, mas não uma unificação. Não há uma norma absolutamente comum, não poderia haver.

 Mas vamos aos factos. 1) Suprimiram-se as consoantes mudas c e p, mantendo-se quando são articuladas. 2) Suprimiram-se alguns acentos, sobretudo nas palavras graves. 3) Uniformizaram-se e clarificaram-se as regras da utilização do hífen. 4) Foram revistas as regras de utilização das maiúsculas e minúsculas. 5) Foram (re)introduzidas três novas letras no alfabeto, k, w e y.
 Apresentados os factos — não exemplifico por questões de espaço, mas bastaria uma folha A4 para fazê-lo —, passo a expor a minha perspetiva de falante e escrevente nativa da língua portuguesa, também na qualidade de professora de português e de tradutora. Parecem-me óbvias as vantagens de muitas das alterações propostas pelo AO, sobretudo para quem aprende a escrever: a supressão das consoantes mudas, a uniformização das regras da hifenização e da acentuação facilitam a tarefa de quem ensina e aprende a ler e a escrever, sendo as restantes menos relevantes deste ponto de vista.
 De entre todas, parece-me que a supressão das consoantes mudas, pela percentagem relativamente elevada de palavras sobre as quais incide, é especialmente importante. Os dois principais argumentos contra esta alteração prendem-se com: a) a etimologia e a tradição de uma certa norma gráfica e b) as exceções que esta regra admite. Quanto ao primeiro argumento, os detratores falam de uma descaraterização da língua, do perigo de fechamento das vogais que precedem as consoantes sacrificadas pelo AO; quanto ao segundo, são apontadas situações de possível dupla grafia, uma vez que, se se seguir o critério fonológico (“escrevo conforme falo”), é possível criar, no limite, regras “individuais” (ex.: se eu disser “característica” escrevo com C, se disser “caraterística” escrevo sem C).

 Se em relação ao primeiro argumento, embora seja sensível ao critério etimológico da grafia, me custa aceitá-lo sem mais, em relação ao segundo, concordo com o risco de que estas exceções se revestem, sobretudo para quem tem de ensinar (e aprender) a ler e a escrever. De facto, como avaliar a escrita em função da articulação de cada aluno? Como ensinar a noção de norma se ela admite exceções e “regras facultativas”? Voltando ao primeiro argumento, o etimológico, posso contra-argumentar de várias formas: 1) Se a etimologia fosse um valor a preservar a todo o custo, não haveria sequer lugar a reformas ortográficas, como as de 1911 e 1945, em que se verificou, tanto numa como noutra, uma aproximação tendencial entre grafia e fonia (ainda deveríamos escrever “philosophia”, “addição” ou “auctor”, etc., se este critério fosse levado à risca); 2) A ortografia, ou forma correta de escrever, é um esforço para encontrar uma norma, o menos ambígua possível, de registar graficamente os sons da fala; como tal, implica convencionalidade e até um certo grau de arbitrariedade. Ora, parece-me ser desejável uma relação tão clara e inequívoca quanto possível entre a(s) letra(s) e os sons que pretendem transcrever, e penso que no caso da supressão das consoantes mudas se faz um avanço nesse sentido. 3) A análise de algumas palavras que são por certas pessoas articuladas com c ou p (e por outras não: ex.: característica vs. caraterística, sectorial vs. setorial, corrupção vs. corrução) mostra que estamos perante uma mudança linguística (fonética) ainda em curso, que tem vindo a ocorrer provavelmente desde o princípio do século XX. A nova norma trazida pelo AO dá conta dessa mudança, que não é ainda completa, pelo que admite, com as desvantagens referidas, a possibilidade de uma dupla grafia (em muito poucos casos, diga-se, e com tendência a desaparecer). 4) O argumento de que a ausência de consoante c ou p para abrir a vogal precedente não colhe. Quem apresenta este argumento, cita habitualmente palavras como setor, receção, aspeto, porque poderão vir a ser confundidas, respetivamente com s’tor (abreviatura de Sr. Dr.), recessão e espeto (o substantivo, não o verbo). E não sabe que este argumento não é totalmente fiável (por exemplo, nas palavras tactear ou exactidão o c não abre a vogal).

 Em síntese: 1.º Parece-me que este acordo tem algumas vantagens (haver uma maior aproximação entre fala e escrita, e uma maior uniformidade de critérios, nomeadamente na hifenização); 2.º Tem, no entanto, muitas insuficiências e cria problemas novos onde não existiam (as “facultatividades”). 3.º Vai ser mais problemático para as escolas, para os professores que têm de ensinar a escrever e que se vão confrontar com as inconsistências da nova norma. 4.º Parece-me que algumas mudanças são empoladas e dramatizadas (e serão assim tantas e com tantos efeitos? Experimentem ler textos de jornal, aqui no PÚBLICO, por exemplo, onde as duas normas convivem, e não vão notar assim tantas diferenças). Aqui d’el-rei!, como irá um professor explicar ao pobre aluno que ‘Egito’ se escreve sem p e ‘egípcio’ com? Do mesmo modo que terá de explicar, por exemplo, que ‘dicção’ se escreve com c e ‘dicionário’ sem. E outras irregularidades (não só ortográficas) da língua. 5.º Ninguém é obrigado a escrever segundo a nova norma, a não ser que vá ser avaliado por isso. Fernando Pessoa recusou-se a aceitar a reforma ortográfica de 1911 e ninguém o multou por isso, Teixeira de Pascoaes também tinha muitas reservas em deixar de escrever “abysmo” com y porque, segundo ele, escrever abismo com i o convertia numa superfície banal.

 Sou uma defensora, embora crítica, deste AO. Recusome a rejeitá-lo liminarmente, e pugno por uma revisão dos pontos que carecem de correção. É importante que surjam críticas, movimentos de desacordo, mas é importante também que haja uma discussão informada e serena, em que todos os lados e protagonistas estejam representados.

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A “questão” do acordo ortográfico já fede…. http://www.enxuto.org/blogue/a-questao-do-acordo-ortografico-ja-fede http://www.enxuto.org/blogue/a-questao-do-acordo-ortografico-ja-fede#comments Mon, 06 Feb 2012 19:20:26 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=881 Depois da pequena jogada de tentar colar o último (e impopular) governo à aplicação do acordo ortográfico (AO), os aguerridos anti-AO voltam à carga porque um dos seus melhores (Vasco Graça Moura-VGM) resolveu utilizar a tribuna que lhe dá um emprego de nomeação governamental para voltar a pôr em causa o acordo, embora se saiba que a sua aplicação será obrigatória em 2014. Confesso que até acho interessante a tomada de posição de VGM, demonstra coerência e força de vontade. Dado que acredito na sinceridade das opiniões de VGM sobre o AO, isto é, acredito que  acredita que se trata dum “ataque sem precedentes” à língua portuguesa, apraz-me que aproveite uma posição de poder para exercer o dito poder.

Claro que a ordem de suspender a aplicação do AO no CCB deu logo origem a muitos aplausos dos anti-AO e muita irritação dos pró-AO. Os jornais “Público” e “Expresso”, que há anos disputam o que resta das elites leitoras de jornais, não perdem uma oportunidade para põr em evidência o seu lado da barricada. Na Assembleia da República, várias bancadas tentaram discutir a questão, mas ficaram-se pelas picardias e graçolas, ninguém disse nada de verdadeiramente interessante, a não ser talvez o governo, que conseguiu mais ou menos mostrar-se calmo e “pouco preocupado” com a matéria.

Hoje no jornal Público, o cronista Rui Tavares, que defende o acordo, ao contrário do jornal em que escreve, dá-nos um artigo meio-humorístico a gozar com quem se preocupa tanto com as consoantes mudas (os anti-AO). Tem alguma graça, mas, sinceramente, começo a estar um pouco farto desta polémica e do que ela revela sobre a nossa incapacidade para resolvermos os nossos problemas. 

A verdade é que estamos agora numa situação ridícula em que uma parte da imprensa escreve com regras diferentes da outra parte, em que uma instituição financiada a 100% pelo erário público aplica ou não aplica o acordo conforme o senhor que o governo nomeia para a dirigir. Diria que o espectáculo dado pelos especialistas da língua é quase tão triste como o que nos é proporcionado nas primeiras semanas do ano pelos senhores especialistas da justiça na chamada “Abertura do Ano Judicial”.

Francamente, penso que a questão começa a cheirar mal. Será que é assim tão difícil sentar a uma mesa personalidades dos dois lados da barricada de modo a encontrar uma solução de compromisso que, por um lado, não nos ridiculize perante os nossos parceiros e, por outro, acolha algumas das críticas das pessoas chocadas com a queda das consoantes átonas? Falo por mim. Eu próprio preferiria começar a dizer o “p” de Egipto do que deixá-lo cair. Dado que todas as consoantes átonas já foram pronunciadas, por que não voltar a pronunciar algumas? Assim contentariamos aqueles que não as querem perder de modo nenhum e também aqueles que querem manter a regra do AO que obriga a escrever a consoante pronunciada. Francamente preferiria pronunciar o “c” em acto, espectador  e transacto, ou o “p” em Egipto, baptismo e recepção, em vez de prescindir das ditas consoantes.

Como sou olhado com desconfiança por ambos os lados, dado que para os anti-AO sou do “inimigo” e para os pró-AO sou um apoiante “frouxo”, talvez esta modesta sugestão capte o interesse de alguém…

Faço-a pensando em todos aqueles que não têm culpa de haver tanta controvérsia em torno duma questão de somenos importância. A verdade é que os nossos especialistas não estão à altura das responsabilidades que lhes cabem. Não trabalham o suficiente para que seja relativamente simples saber escrever bem em português.  

 

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“O Chipre” não existe!!! Chipre é Chipre, sem artigo definido http://www.enxuto.org/blogue/o-chipre-nao-existe-chipre-e-chipre-sem-artigo-definido http://www.enxuto.org/blogue/o-chipre-nao-existe-chipre-e-chipre-sem-artigo-definido#comments Sat, 03 Sep 2011 16:29:48 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=846 Cada vez que se fala de Chipre nas notícias em Portugal (normalmente devido ao futebol), aparecem jornalistas a falar e a escrever sobre “o Chipre”, acrescentando um artigo definido ao nome de um país que tradicionalmente não o deve ter. Tal como Portugal, Marrocos, Cuba, Malta, Madagascar, Aragão, Castela, Leão, Navarra, Taiwan, só para dar alguns exemplos, Chipre é Chipre, NÃO É “o Chipre”.

Normalmente, os nomes dos países são usados com artigo definido, masculino ou feminino, mas há várias excepções, como as atrás indicadas. As ilhas, pelo contrário, normalmente não “pedem” artigo definido, como se pode ver nos exemplos de todas as ilhas com nomes de santos, em todas as ilhas da Grécia, das Antilhas e de muitos outros sítios do mundo. Há algumas excepções, que normalmente correspondem a nomes de ilhas que também são nomes comuns, isto é que designam algo de específico, como é o caso da Madeira e dos Açores, mas também há casos que não correspondem a essa explicação: a Córsega, a Sardenha, a Sicília. Muitos dos arquipélagos têm o artigo definido “as” por serem “as ilhas” qualquer coisa (Filipinas, Curilhas, Hébridas, Bahamas). Resumindo, não há nenhuma razão para que se diga “o Chipre”. Pelo contrário, deve-se dizer “Chipre” apenas, sem artigo definido.

Não consigo entender por que razão aparecem sempre tantos “comunicadores a falar sobre “o Chipre”. Por contágio de línguas estrangeiras,não é. Será porque a palavra é parecida com o termo “chifre”, bastando mudar uma letra? Já existe o Corno de África, será que também querem o Chifre no Mediterrâneo?

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Desportivo de Trebizonda visita Lisboa e não há ninguém na imprensa que se interesse sequer por conhecer o nome da cidade http://www.enxuto.org/blogue/desportivo-de-trabizonda-visita-lisboa-e-nao-ha-ninguem-na-imprensa-que-se-interesse-sequer-por-conhecer-o-nome-da-cidadea http://www.enxuto.org/blogue/desportivo-de-trabizonda-visita-lisboa-e-nao-ha-ninguem-na-imprensa-que-se-interesse-sequer-por-conhecer-o-nome-da-cidadea#comments Tue, 02 Aug 2011 17:25:42 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=839 Na semana passada e amanhã o Sport Lisboa e Benfica enfrenta numa competição europeia uma equipa turca chamada Trabzonspor. Alguns escribas ainda disseram que o nome é impronunciável, mas ninguém se deu ao trabalho de descobrir se a cidade de Trabzon tem ou não nome português. Pois tem. É Trebizonda, cidade importante na época medieval e nome conhecido pelas pessoas familiarizadas com literatura de viagens e com alguns livros de Corto Maltese, de Hugo Pratt.

O que me choca nesta total ausência de curiosidade é a preguiça mental.

Bem sei que cresci numa época em que Portugal era um país fechado ao exterior e em que os jornalistas desportivos eram das poucas pessoas com contactos constantes com o estrangeiro. Também me lembro que eram quase sempre pessoas com conhecimentos consideráveis de Geografia e de História. Tenho a certeza que há 50 anos teria havido nos jornais quem tivesse aproveitado a circunstância do Benfica ter recebido o Trabzonspor e de se deslocar a Trebizonda para nos dizer algo sobre essa pequena cidade histórica nas margens do mar Negro.

Como hoje só interessa o irrelevante, tudo a que tivemos direito foi uma ou outra “graçola” sobre como o nome é impronunciável.

Aqui vai Trebizonda na Wikipedia em inglês, porque em português não há nada que interesse

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Acordo ortográfico e novo governo http://www.enxuto.org/blogue/acordo-ortografico-e-novo-governo http://www.enxuto.org/blogue/acordo-ortografico-e-novo-governo#comments Fri, 01 Jul 2011 12:32:40 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=834 Alguns dos opositores mais veementes ao acordo ortográfico (AO), como António Emiliano, Francisco Miguel Valada e Vasco Graça Moura, têm tentado nas últimas semanas reavivar a polémica, aproveitando o facto de haver um novo governo com claros propósitos reformistas, nomeadamente numa área de grande importância para a política da língua, a educação. O jornal “Público” tem acolhido generosamente alguns destes polemistas e um dos seus directores adjuntos (Nuno Pacheco) tem estado particularmente activo com artigos virulentos, facto que foi analisado na última semana pelo próprio Provedor do jornal.

Sem querer voltar a esta estafada polémica (quem quiser ler algo mais sobre o assunto, tem no Ciberdúvidas uma página bastante completa, e também um resumo das últimas declarações sobre o assunto), há que salientar que o novo ministro da Educação fez hoje um excelente discurso na Assembleia da República, no qual abordou com cuidado a questão do ensino da língua portuguesa. Os opositores ao AO, que sempre tentaram mistificar a opinião pública com a ideia de que “só eles” defendem a dita língua, estão a tentar “empurrar” este governo para que ponha a questão do AO na agenda política, mas parece-me que não vão ter sorte. Os sinais políticos que têm sido dados nas diversas áreas políticas apontam para um grande pragmatismo e não vejo sinais de vontade de alimentar polémicas desnecessárias.

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O copianço no CEJ, um caso exemplar de moralismo e mediocridade http://www.enxuto.org/blogue/o-copianco-no-cej-um-caso-exemplar-de-moralismo-e-mediocridade http://www.enxuto.org/blogue/o-copianco-no-cej-um-caso-exemplar-de-moralismo-e-mediocridade#comments Tue, 21 Jun 2011 16:28:46 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=832 Tem-se falado bastante nos últimos dias acerca do caso do “copianço” no Centro de Estudos Judiciários (CEJ). Não sei o que espanta mais, se o moralismo de algumas “virgens indignadas”, se a mediocridade da direcção do CEJ que tentou abafar o caso. Vamos por partes: a prática do copianço não é propriamente um caso isolado nas nossas escolas, provavelmente nunca o foi. É muito provável que muitas das pessoas “indignadas” que se exprimiram na imprensa  tenham ao longo da sua carreira escolar copiado uma ou outra vez, ou tenham permitido a colegas o dito copianço. O problema não é haver tentativa de fugir às regras, o problema é haver da parte de quem ensina e/ou dirige o ensino uma espécie de tolerância mediocre e preguiçosa. Não se ensina nada se não forem impostas regras, ética, recompensas aos virtuosos e castigos aos prevaricadores. Qualquer “relativismo” nesta matéria só indicia mediocridade e falta de vontade de ensinar. Sem estas balizas, o próprio acto de violar a regra fica desvalorizado, banalizado, torna-se uma inutilidade balofa.  

Quanto à direcção do CEJ, há que ler o depoimento de Manuel António Pina, no Jornal de Notícias (JN). Lamento dizer que não me espanta o que li no JN. Infelizmente, os assuntos da Justiça em Portugal estão condicionados pelo peso excessivo das corporações do sector e o CEJ é um viveiro de membros dessas corporações.

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Ainda o acordo ortográfico: alguns conselhos singelos ao novo governo http://www.enxuto.org/blogue/ainda-o-acordo-ortografico-alguns-conselhos-singelos-ao-novo-governo http://www.enxuto.org/blogue/ainda-o-acordo-ortografico-alguns-conselhos-singelos-ao-novo-governo#comments Tue, 21 Jun 2011 16:06:19 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=827 Agora que tomou posse o novo governo, talvez valha a pena regressar à polémica sobre o acordo ortográfico (AO). O novo governo poderá, eventualmente, aproveitar a descrispação política que parece ter-se instalado por algum tempo para tentar fazer avançar a execução do AO.

Neste blogue sempre lamentei que a polémica em torno do acordo tenha acabado por ficar demasiado politizada, em vez duma discussão civilizada entre pessoas com algum conhecimento sobre a matéria. A falta de cuidado de alguns inimigos do AO, que deixaram “encostar-se” à contestação algumas pessoas com posições xenófobas ou mesmo racistas (contra o Brasil, nomeadamente), prejudicou bastante a qulidade do debate.

O novo governo não deve olhar para trás, mas antes para a frente (apreciei sobremaneira a declaração de Passos Coelho na noite das eleições de que não iria falar do passado para “justificar” qualquer falha do presente). E a causa da defesa da língua portuguesa deve reunir todas as forças disponíveis. Entre os inimigos do AO há muitas pessoas verdadeiramente empenhadas na defesa da nossa língua e não seria inútil que houvesse a habilidade suficiente para os trazer de volta a consensos alargados sobre uma política da língua.

Os leitores deste blogue sabem bem que nunca fui um entusiástico defensor do acordo, mas sempre contestei que se pusesse em causa um acordo internacional por questões de menor importância. Claro que não gosto da eliminação de consoantes átonas com que estou habituado a escrever, claro que tenho adiado a aplicação do acordo neste blogue (enquanto não for obrigatório, vou-me mantendo no meu comodismo), mas aquilo que os adversários do AO não me conseguem explicar é a urgência, a necessidade, a premência de dificultar as nossas relações com os países de língua portuguesa por causa de alguns (poucos) incómodos que nos possam causar as pouquíssimas alterações ortográficas introduzidas pelo AO.

Se me conseguissem explicar, então talvez me convencessem que valeria a pena voltar a falar com os outros países signatários do acordo e fazer uma revisão que melhorasse o AO. Mas não seria o esforço desproporcionado?

Enfim, seja como for, aqui vão três conselhos singelos: em primeiro lugar, deve-se alterar o menos possível o que já está em curso. A matéria é suficientemente polémica para que mereça a pena introduzir novos factores de divisão; em segundo lugar, devem ser ouvidas todas as partes na contenda, sem hostilização de ninguém. Como tenho dito repetidamente há entre os adversários do AO muitas pessoas qualificadas e o país precisa de todas. Em terceiro lugar, tentar manter o “soufflé” desinchado, evitando dar demasiada importância ao assunto.

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“Presidenta” é um disparate http://www.enxuto.org/blogue/presidenta-e-um-disparate http://www.enxuto.org/blogue/presidenta-e-um-disparate#comments Thu, 09 Jun 2011 10:26:21 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=821 Mão amiga reenviou-me um curto texto a explicar por que motivo a presidente Dilma Roussef  está a fazer grossa asneira quando defende o termo “presidenta”. Eis:

«Existe a palavra PRESIDENTA?

Que tal colocarmos um ponto final no assunto?

Em português existem particípios ativos que são derivativos verbais. Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendigar é mendicante… Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade. Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não “presidenta”,
independentemente do sexo que tenha. Diz-se capela ardente, e não capela “ardenta”; diz-se estudante, e não “estudanta”; diz-se adolescente, e não “adolescenta”; diz-se paciente, e não “pacienta”.

Um bom exemplo do erro grosseiro seria:

“A candidata a presidenta comporta-se como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter-se tornado  eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, de entre tantas outras atitudes barbarizantas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta”.

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Ilusión nem sempre quer dizer ilusão em português http://www.enxuto.org/blogue/ilusion-nem-sempre-quer-dizer-ilusao-em-portugues http://www.enxuto.org/blogue/ilusion-nem-sempre-quer-dizer-ilusao-em-portugues#comments Thu, 09 Jun 2011 09:40:48 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=816  Nos jornais desportivos de Portugal, nos últimos tempos, tem aparecido com alguma frequência o termo “ilusão” em frases que parecem um pouco absurdas na nossa língua. Exemplos: “Vamos disputar com muita ilusão o próximo jogo” ou “na nossa equipa jogamos sempre com muita ilusão”. Normalmente, trata-se de declarações de jogadores espanhóis ou da América latina que são “traduzidas” à pressa e à letra nas redacções. Erro. Em espanhol, e só em espanhol (não acontece em mais nenhuma língua neolatina) o termo “ilusión” ganhou, no período romântico, uma conotação ligeiramente diferente do significado do termo original em latim. No excelente dicionário María Moliner a segunda definição de ilusión reza assim: Alegria o felicidad que se experimenta con la posesión, contemplación  o esperanza de algo

Veja-se, a este propósito a entrada do dicionário da Real Academia da Língua Espanhola , em especial as definições números 2, 3 e 4 ou leia-se o último parágrafo desta definição encontrada Wikipedia.

Para quem quiser uma explicação mais completa, aqui vai uma parte de um ensaio de Juliám Marías sobre o assunto:

«UN SECRETO DE LA LENGUA ESPAÑOLA.

La palabra ilusión proviene del latín illusio

Iluso: el que está engañando.

Ilusor: el que engaña a otro.Ilusorio

: algo que engaña.Pero es en el español donde comienza a aparecer el significado positivo de la palabra ilusión

. Con este significado, comienzan a surgir distintas expresiones como “tener ilusiones”, “vivir con ilusión“, etc. El cambio semántico de ilusión tiene lugar en los primeros decenios del siglo XIX, pero no fue registrado por los diccionarios hasta finales de dicho siglo. Hasta entonces, la ilusión era fruto de la imaginación, algo engañoso, un sueño imposible de alcanzar (hacerse ilusiones). En 1875 sigue su significado negativo, pero empieza a verse el positivo, aunque predomina la noción de error. Pero ya podemos ver que la ilusión nos es imposible de alcanzar o no, y si es así, si la podemos hacer realidad, nos brinda felicidad y satisfacción. Así, también cabe destacar que toda ilusión está inseparablemente unida a la posibilidad de la desilusión; cuando no conseguimos nada, cuando creemos que algo nos va a provocar bienestar y al final no es así, nos desilusionamos. A mediados del siglo XX se comienza a registrar la mayor parte de los aspectos positivos de esta singular palabra: tener ilusiones, hacer algo o poseer algo que nos haga sentirnos bien.»Como os meus leitores bem sabem, não me incomodam muito as influências de outras línguas na nossa, mas teimo em chamar a atenção para influências que resultem apenas de ignorância pura. Já aqui me insurgi contra a generalização do termo “provador” para designar as cabines de prova nas lojas de roupa. Em português, um provador é uma pessoa que prova, tal como um comedor é uma pessoa que come (em espanhol, comedor é refeitório).

Não tenho ilusões (em português) quanto à eficácia destas críticas, já que a simplificação, a pressa e o imediatismo dos efeitos são verdadeiros ídolos do nosso século. Mas continuarei a fazê-las con ilusión (em espanhol).  

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O dia seguinte (3) http://www.enxuto.org/blogue/o-dia-seguinte-3 http://www.enxuto.org/blogue/o-dia-seguinte-3#comments Tue, 07 Jun 2011 15:47:22 +0000 Miguel RM http://www.enxuto.org/?p=812 Mais um interessante comentário aos resultados eleitorais, desta vez de alguém – Luís M. Jorge – que anunciou ir votar em branco.

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